Suzanne Lebeau e o Grupo Le Carrousel: A infância levada a sério.

Alguns estudiosos da neurociência já afirmaram que a narrativa é tão importante para a criança como o leite materno. Nós já nascemos gostando de uma boa história, nós crescemos e nos identificamos culturalmente através das narrativas que nos são contadas. É através da narrativa que vamos desvendando pouco a pouco em nossas vidas o que é ser humano, o que é ter empatia e o que é estar no mundo junto com outros pares. 

Se para nós, adultos, a narrativa ainda carrega este grande poder, o que dizer das crianças? Quantas construções de códigos e valores uma narrativa pode promover na mente imaginativa de uma criança! Podemos citar, na literatura e no cinema, diversos exemplos de narrativas encantadoras, que contribuem significativamente para a construção do ser criança. Enquanto você lê este texto, imagino que algumas destas histórias marcantes já passaram pela sua cabeça. Elas são reavivadas em nossa memória afetiva e não deixam de nos encantar somente porque crescemos. Porque boas histórias são boas histórias e vão encantar a todos, independente da idade. 

No entanto, quando falamos de teatro, em especial no Brasil e em nossa cidade, há poucas produções realmente empenhadas em encenar narrativas envolventes, capazes de entreter crianças e adultos, oferecer uma comunhão de ideias e sentimentos e tornar a ida ao teatro uma experiência realmente relevante. Produções teatrais de qualidade duvidosa, que trazem à cena personagens de desenhos animados, que reproduzem contos da carochinha sem qualquer tipo de atualização, que menosprezam a inteligência da criança com lições de moral e caricaturas infantis ainda são comuns. De uma forma geral, salvando-se relevantes exceções, parece que o teatro para crianças não se reinventou, perdeu o bonde da história e ficou muito atrás do cinema e da literatura, reproduzindo velhos clichês, formatos e dramaturgia obsoletos. Ou será que são os artistas de teatro que, há muito tempo, consideram o público criança e jovem menos importante, um público menor, menos interessante? 

As duas hipóteses são verdadeiras, assim como também é verdade que vem ganhando força um movimento contrário, formado por artistas de todas as regiões do Brasil que se debruçam na pesquisa sobre esse público, seu universo e peculiaridades. O Grupo Teca, grupo residente do Teatro Molière da aliança Francesa, o qual faço parte, é um dos grupos interessados em produzir arte com e para crianças com o respeito e qualidade estética que elas merecem. Investir na pesquisa da arte para a infância e seguir na busca de novos caminhos, temas e formatos acaba por revelar diante de nós grandes desafios. Um desafio muito comum entre os artistas da infância é a escolha dos temas e a autocensura. Podemos falar de tudo para as crianças? Existem temas proibidos na infância? Como abordar temas difíceis e estabelecer uma comunicação honesta com o público mirim? 

Em setembro deste ano, participamos do “V Foro de investigadores y críticos de teatro para ninõs e jovenes”, em Buenos Aires (AR). Apresentamos uma comunicação acerca de nossas expectativas em relação à escrita de uma dramaturgia para a infância.  Na ocasião, tivemos a oportunidade de conhecer pessoalmente a pesquisadora e dramaturga Suzanne Lebeau, ícone do teatro infanto-juvenil na contemporaneidade com seu trabalho à frente do grupo Le Carrousel.  

Suzanne, nascida em Quebec, Canadá, inicia sua incursão ao teatro como atriz em 1966. Sua formação acontece mais precisamente em Quebec, Montreal, Paris e Polônia, tendo estudado com importantes referências para o teatro ocidental. Em 1975, funda o Le Carrousel, junto com Gervais Gaudreault. A partir daí, Suzanne abandona gradualmente o trabalho de atriz para se dedicar à escrita. Hoje, ela tem mais de 25 peças originais, 3 adaptações e várias traduções assinadas. É reconhecida internacionalmente como uma das líderes do movimento dramatúrgico para crianças e jovens, além de ser uma das autoras de Quebec mais montadas no mundo, com mais de 150 produções. Seus trabalhos são publicados ao redor do mundo e traduzidos para 24 idiomas. 

Suzanne viaja por todos os continentes falando sobre suas pesquisas acadêmicas e experiências de escritas para jovens, sempre nos lembrando que escrever para a criança exige o mesmo empenho e responsabilidade que a escrita para adultos. Mas também carrega a particularidade de uma criação específica, complexa, que requer grande preparação teatral e humana.

Suzanne se impôs no cenário teatral mundial por sua solidez e rigor em sua trajetória de escrita dramática para a infância e juventude. No Brasil, as peças de Suzanne vem sendo traduzidas pela diretora carioca Karen Acioly, também pesquisadora do teatro para a infância. Karen realiza no Rio de Janeiro um importante festival, o FIL (Festival Internacional de Intercâmbio de Linguagens). Através desse evento, os artistas brasileiros podem conhecer e trocar de forma mais efetiva com grupos e artistas que propõem novos olhares na arte feita para a infância e juventude no mundo.

Os chamados “temas tabu” da infância são para nós, do TECA,  temas urgentes e já experimentados em alguns de nossos espetáculos, como por exemplo os tema da morte (O Mundo de dentro/2015), questões de gênero e sexualidade (O Cordel de Maria Cin Drag Rela/2016), guerra e violência (O Poderoso de Marte, com estreia prevista para abril de 2019). Contudo, ao conhecer mais profundamente o trabalho de Suzanne como artista e pesquisadora, percebemos que certos temas e discussões que, para o público brasileiro (e até mesmo latino americano), parecem ser recebidos como inovadores quando inseridos em espetáculos infanto-juvenis, há cerca de 40 anos já fazem parte de seu repertório. Então sim, em algum momento, parece que perdemos o trem e precisamos nos apressar para alcançar a construção de um teatro que realmente se comunique com crianças e jovens de hoje, traga discussões relevantes e insira-os no nosso contexto histórico, como cidadãos que têm o que dizer.

O Grupo Teca sentiu-se muito feliz em estabelecer contatos com o Grupo Le Carrousel, pois comunga dos mesmos ideias acerca da arte para a infância e juventude: O respeito às crianças enquanto cidadãs, moradoras desse mundo, procurando sempre em nossos espetáculos, convidá-las ao debate. E como o intercâmbio de linguagens e a pesquisa de novos olhares é para nós tão urgente e libertária, comunicamos com alegria que já planejamos a vinda de Suzanne para uma conferência a ser realizada aqui no Teatro Molière Salvador, no ano de 2019! E vocês já estão convidados!

Revista La Baguette – Edição de Dez/2018

Suzanne Lebeau e o Grupo Le Carrousel: A infância levada a sério.

Por Luciana Comin