O Teca está de mudança. E em 2020 a gente já estreia de casa nova.

Eu tô voltando pra casa de vez

Por Marconi Arap

"Hoje joguei tanta coisa fora... vi o meu passado passar por mim..." às vezes saudosismos, raramente raiva, quase tudo cordial (que é característica do que passa pelo portal cardíaco da emoção, do sentimento). 

    Há uma semana desmontamos coisas, encaixotamos,     desensacamos outras para triagem do que serve, do que   não serve, o que é nosso, o que é de terceiros, o que é   do teatro e o que e do lixo e transportamos para os   lugares de direito.

 

   Sim. Estamos de mudança. O Teca depois de quatro   anos residindo no Teatro Moliére da Aliança Francesa   está seguindo um novo caminho.

 

Está sendo um misto de sentimentos nem sempre harmônico em mim: às vezes dá um baita alívio de voltar pra caixinha de onde saímos, àquilo que carinhosamente chamamos de ateliê - essa palavra francesa que fizemos questão de optar pela grafia aportuguesada - mas às vezes dá pena. Aprendemos a chamar o Teatro Moliére de casa. A gente pega afeição por aquilo que a gente trabalha (essa gente das artes que tudo é apego, afeto, grude... eu hein...!) Mas pegamos.

Fico pensando nas pessoas que virão depois de nós se saberão que a cortina não pode subir toda senão emperra, quanto tempo levará pra descobrir que uma carreira inteira de canais não funciona, que um dos racks está dando fuga de energia e que no oco do palco tem buracos cobertos por madeira e que ela não é muito confiável, que os benditos banheiros dos camarins, mesmo quando estão limpinhos exalam cheiro particularmente ruim nos dias ensolarados, ou que a pia do banheiro masculino é intocável, senão despenca.

Tenho pena disso pra caramba! Quero o melhor pra esse lindo teatrinho.

Quanto às condições fisica dos imóvel, acreditem: houve muitas melhoras que fizemos nesses quatro anos. Mentira: esse ano a gente não melhorou em nada o teatro. A gente já sabia que queriam que a gente se picasse, não íamos investir tempo e grana pra ficar depois pra Quelé!

Mas quando chegamos pegamos o teatro sem luz de serviço, com a linda cortina francesa quebrada, com os bastidores impossíveis de serem utilizados pela quantidade de lixo (lembro que enchemos heroicamente um caminhão com o lixo que retiramos dos bastidores), tinha muito pó, muito mofo, muito fio desencapado dando choque no grid de iluminação, tinha tanto cupim... tanto... tanta cadeira quebrada na plateia, sem mesa de som, sem mesa de luz, sem ar condicionado e luzes funcionando na sala de ensaio, nem nos camarins.

Quando chegamos os ratos estavam quase extintos. Baratas lá eu nunca vi, se bem que Lurian matou uma hoje... Mas vimos e sofremos muito com muriçocas. Não havia copa pra guardar comida, esquentá-la e comer decentemente, não havia condições técnicas adequadas, sem cabos e rabichos de iluminação, extensões, cabos de som, quase não havia tomada que funcionasse no teatro. As caixas acústicas somente duas funcionavam e os retornos estavam queimados. Não havia microfones, nem projetores de video, nem projeto para instalação com passagem de cabos de energia e/ou dados.

A vestimenta do palco era escassa, pois os cupins, hoje extintos, destruiram a rotunda e as pernas. Não havia fundo branco (à título de ciclorama). Havia somente 15 refletores funcionando. Até havia algumas lâmpadas de refletor, mas insuficiente para dar conta de todos os que podiam ser usados, porque estavam defeituosos.

Todas essas coisas e o preço exorbitante da pauta faziam o Teatro Moliére um lugar fantasmagórico de tão abandonado. Um monte de gente sequer tinha ouvido falar desse teatro ali no lindo casarão da Ladeira da Barra.

Fizemos tudo isso funcionar. A receita foi trabalho, trabalho, trabalho e mais trabalho. O amor estava incutido ali na ação de realizar sem dinheiro o que seria possível realizar.

De 2016 pra cá empobrecemos financeiramente ao passo que enriquecemos como artistas, como gestores de nossas carreiras. Amadurecemos bastante. Agora é hora de partir.

E hoje essas lembranças todas vieram a mim no momento que desmontava meu circo... Os figurinos foi o que mais me emocionou. Roupas que minha Zizi usou em seus primeiros espetáculos quando era pequenina, ou um figurino que vestimos quando ganhamos prêmio ou um adereço que tem humor em si, tal como a panelinha com uma colher de pau presa numa correntinha do Burguês Ridículo, este Moliére que chamamos de Com o Rei na Barriga (- Nicooole!)

Aquelas coisas todas tinham, têm uma história comigo, conosco... as peças iam passando pela triagem e com elas vinham a imagem dos alunos vestidos, alunos que eram miúdos e que hoje são enormes! Crianças que eram tímidas e que hoje desenrolam superbem as situações e que mesmo fora do Teca, mesmo em outros estados ou países quando vêm pra SSA, vêm dar um abraço nos professores, contar como estão e se espantar com o tamanho de Zizi.

Lá estavam todos. Alguns personagens, algumas situações inusitadas tudo tecido, costurado com a linha efêmera do teatro cada lembranças num tempo fugidio...

Mas desapeguei de tudo que não nos servirá num futuro próximo. Fiquei orgulhoso de mim. O bom é olhar pra frente, praquilo que não realizamos ainda e que desejamos profundamente realizar.

   E para alcançar esse objetivo nos desfizemos de mais   de 100kg de roupas, acessórios, adereços, algum   cenário, ornamentos mais ou menos quebrados ou que   exigiriam alguma manutenção, velhos ou que não faziam   mais sentido levar para a casa nova que por mais legal e   grande que seja não vai caber tudo que cabe num     espaço de um teatro.

   E lá se foi 2019 com gente querida que precisou ir   embora pra arejar as ideias e com gente querida que       optou em se picar e que nem ta fazendo tanta falta   assim, mas que gostaria que estivesse conosco.     

 

Porquê? Porque eu sou assim: pegajoso, ciumento, grudento... porque só quero longe de mim gente preguiçosa, triste, fuleira, negativa, realista e que votou em bozo. De resto quero todos pertinho. Mesmo os que pensam diferente. Esses ajudam a gente a escolher melhor as paradas.

                            

Em contrapartida aos que foram chegaram pessoas tão bacanas e aproximou mais ainda os que ficaram. É isso. Como diz mãínha (a minha): "entre mortos e feridos salvaram-se todos".

Que venha 2020, porque 2019 não me derrubou, por mais que tenha tentado. Apesar de tudo nosso Grupo brocou muito e brocou lindo!

 

                                               

Venha 2020! Mas venha leve, nêgo! Venha de boa! Venha que eu quero lhe usar do mesmo modo que eu quero que vc me use!

Vamos ser felizes juntos?